Grande parte das delícias da vida, para adultos e crianças, mora nas pequenas cenas dos dias comuns: na luz do sol entrando pela janela da cozinha de manhã, no barulho da panela enquanto o almoço está sendo feito, no abraço apertado antes de sair para a escola, no cheiro de roupa limpa, no banho quente depois de um dia inteiro correndo pela casa.
O curioso é que nós, adultos, raramente pensamos nesses momentos como algo especial. Pelo contrário, muitas vezes suspiramos porque alguém precisa colocar roupa na máquina, dobrar meia perdida, limpar a mesa depois do jantar ou lembrar pela quinta vez que é hora de escovar os dentes.
A vida doméstica é cheia dessas pequenas tarefas chatas que parecem se repetir infinitamente. E, para ser sincera, não conheço nenhum adulto que acorda animado pensando: “Que alegria! Hoje vou lavar louça, arrumar mochila e procurar o outro pé da meia.” Mas é justamente aí que está o segredo.
A rotina costura os dias da família, embora para nós ela pareça monótona. Cada momento do cotidiano é cheio de sons, cheiros, movimentos e descobertas. O simples ato de mexer a massa do bolo, abrir uma gaveta de talheres ou colocar a tampa na panela pode ser uma experiência sensorial completa. Para as crianças, tudo isso é fascinante. Elas aprendem que lavar uma colher pode ser tão interessante quanto um brinquedo novo.
E o que torna essas atividades ainda mais importantes é justamente o fato de elas se repetirem. Porque a rotina se repete, as crianças começam a reconhecê-la. Elas passam a confiar nesses pequenos rituais do dia a dia para organizar o mundo.
Primeiro vem o café da manhã. Depois trocar de roupa. Depois sair de casa. Depois voltar, tomar banho, jantar e dormir. Aos poucos, elas começam a entender a sequência das coisas. E, quando percebem essa sequência, começam também a participar.
Um dia querem segurar a colher enquanto você mexe a sopa. No outro querem apertar o interruptor do elevador ou da luz da sala. Nessas pequenas participações, algo muito importante está acontecendo. Sem perceber, a criança está aprendendo ideias fundamentais sobre o mundo: o que vem antes e o que vem depois, como as coisas começam, continuam e terminam, como os objetos ocupam espaço, como o tempo passa, que uma ação provoca outra, como identificar padrões e também reconhecer pessoas, como quem é da sua família ou um estranho.
Talvez uma maneira de nós, adultos, entendermos isso seja lembrar como nos sentimos quando viajamos para um lugar totalmente novo. Quando estamos em um país estrangeiro, tudo parece mais vivo. Prestamos atenção nas placas que não entendemos, nos sons das conversas, nas cores das lojas. Até comprar pão vira uma pequena aventura.
A alegria e a ansiedade que sentimos quando conseguimos pedir comida em outra língua, entender o valor da moeda ou descobrir como funcionam as coisas são parecidas com o prazer que uma criança sente quando começa a dominar as rotinas da própria casa.
Para crianças e jovens com atraso no desenvolvimento, a rotina é muito importante porque ela é o resultado de milhares de pequenas experiências vividas repetidamente. Até porque as rotinas continuam ensinando, mesmo quando crescem.
Então, pense como consome seus dias porque a coisa realmente importante que você faz por ele não é apenas levá-lo para todas as terapias, escola e estimulações. Mas sim incluí-lo nas atividades do cotidiano, como conversar enquanto prepara o jantar, levá-lo com você quando passa na farmácia no caminho para casa, caminhar juntos até a escola ou esperar lado a lado na recepção de uma terapia. Assim, você está ajudando-o a crescer de maneiras importantes e consistentes.
Seu filho não é uma máquina de dar respostas certas, mas um ser humano que aprende muito quando experimenta o mundo com você.





