No tronco de uma umburana seca e queimada, de forma poética a natureza se manifesta: no alto do galho seco os canarinhos amarelos cantam, o ninho com os ovos anunciam novos nascimentos e as plantinhas verdes dentro da umburana seca, anunciam que a natureza ensina sem palavras e em versos, até no que parece morto, dizendo que a vida insiste em nascer.
Tudo isso sob o olhar do poeta.
Compartilhando imagens, poesia e reflexões sobre a delicadeza da vida que resiste, constrói ninhos e transforma o cerrado em um verdadeiro livro aberto de beleza e esperança.
Há momentos em que a natureza pede duas linguagens para ser compreendida.
Primeiro vem a poesia, breve e sensível, feita de imagens e versos. É o olhar que sente antes de explicar.
Depois vem a prosa, mais lenta e reflexiva, que caminha entre as palavras para interpretar aquilo que o coração já percebeu.
No Cerrado, quase sempre é assim:
primeiro a gente se encanta; depois tenta entender.
A poesia capta o instante, o tronco oco, o ninho escondido, o broto teimoso que insiste em nascer.
A prosa chega depois, como quem se senta à sombra da paisagem para refletir sobre o que ela ensina.
Entre versos e pensamentos, a natureza revela sua sabedoria: no Cerrado, nada termina de verdade, tudo se transforma.

A natureza cabe nos meus versos
como o vento nas veredas
e a água na nascente
sem pedir licença para nascer.
Cabe no tronco antigo, oco de tempo e memória,
onde a vida insiste em brotar mesmo quando tudo parece morrer.
Cabe no ninho escondido entre galhos,
onde pequenos ovos guardam o futuro,
e o milagre simples de existir.
Cabe no voo dos pássaros
que transformam espinhos em beleza.
E quando escrevo,
não sou só eu que falo:
fala o chão, fala a raiz profunda, fala o vento do cerrado.
No fundo, meus versos são apenas isso:
um pequeno lugar
onde o Cerrado continua nascendo como um berço generoso.
A umburana não morreu, transformou-se.
Seu tronco oco virou abrigo, seu silêncio virou berço.
Onde o tempo abriu cicatrizes, a vida encontrou morada: um ninho protegido, um broto buscando luz.

No Cerrado, até o que parece fim é começo.
A velha árvore já não cresce para o céu,
mas sustenta novos voos.
E talvez esteja aí a maior lição da paisagem:
assim como a umburana, nossas cicatrizes também podem virar jardins.
Porque no Cerrado, e na vida, o vazio não é ausência.
É espaço esperando para florescer.





