A lua quebrou vovôi?

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

“Guardei no coração: a noite em que a lua ‘quebrou’, e aprendi a ver o mundo com olhos encantados de criança”

Lili sempre vê a lua cheia comigo.

Esta semana ela viu a lua crescente e me perguntou se a lua quebrou?


Despertou em mim a capacidade de olhar para a vida com espanto, como disse Mia: “a infância é quando ainda não é demasiado tarde”, sugerindo para se deixar encantar.

Que momento mais puro e doce! Essa curiosidade infantil transforma a astronomia na poesia.

“A lua quebrou vovôi?” é uma daquelas perguntas que a gente guarda no coração para sempre.

Essa foi a pergunta da Lili ao dar de cara com a lua crescente esta semana.

Para quem está acostumado com o brilho total da cheia, ver apenas um pedacinho no céu parece mesmo um mistério.

Sobre como a inocência das crianças nos ensina a redescobrir o mundo e a beleza em cada fase da lua e da nossa própria jornada.

A Lili estranhou a lua crescente, mas é nessa “metade” que mora a magia da renovação.

Vamos falar sobre o privilégio de observar o mundo pelos olhos de uma criança e reencontrar o encanto nas coisas simples.

Um convite para a gente parar de correr e aprender a admirar o céu (e a vida) de novo, o que chamo de: reencantar com a vida.

Naquele momento, o tempo parou. “A lua quebrou?” é uma daquelas frases que a gente não apenas ouve, mas guarda em um cofre no coração.

Para uma criança, se algo não está inteiro, é porque partiu.

Se o brilho diminuiu, é porque algo se perdeu no caminho.

Expliquei a ela que a lua estava apenas “brincando de se esconder”, que ela estava inteira, mas que às vezes escolhe nos mostrar apenas um pedacinho de si para nos deixar com saudade.

Mas, enquanto falava, quem aprendia era eu.

Nós, adultos, temos o péssimo hábito de achar que o que muda, quebra.

Que se uma fase da vida não está “cheia” e reluzente, algo está errado.

Temos pressa pelo brilho total e esquecemos que a lua crescente, aquela que a Lili achou que estava partida, é, na verdade, a fase da renovação.

É o anúncio de que o novo está vindo.

Encantar com a vida é exatamente isso: recuperar essa capacidade de olhar para o que parece “quebrado” ou incompleto e enxergar ali um mistério, uma beleza em transição.

A inocência da Lili me lembrou que a nossa jornada também é feita de fases.

Há dias de lua cheia, onde tudo transborda.

E há dias de lua crescente, onde somos apenas um detalhe no escuro, preparando o próximo brilho.

Que a gente não perca a mania de olhar para o céu, e para a vida, com esse espanto sagrado.

Afinal, como diria o poeta, nada está quebrado quando o que se vê é a esperança de um novo ciclo começando.