Aos 44 anos, o atleta montes-clarense Alvimar, conhecido no universo da corrida como Bil, integrante da equipe Kalangos do Sertão, construiu uma trajetória sólida e inspiradora no atletismo de longa distância. Iniciou na modalidade aos 38 anos e, desde o começo, adotou uma rotina de treinos em alto volume, direcionando sua preparação para as provas mais desafiadoras do calendário: as maratonas.
Sua estreia oficial nas competições ocorreu dois anos após o início na corrida, período marcado pela retomada gradual dos eventos esportivos após a pandemia. E o primeiro desafio não foi simples. Bil encarou uma ultramaratona de 50 quilômetros em trail run, com cerca de 1.500 metros de ganho de elevação, na tradicional Espinhaço Extreme, realizada em Diamantina (MG).
Desde então, o atleta acumula dezenas de participações em provas de diferentes distâncias, com destaque para a realização de dez maratonas. Em duas oportunidades, concluiu os 42.195 metros abaixo das três horas — marca considerada de excelência no cenário amador e que exige alto nível de preparo físico e mental.

O sonho chamado Boston
Em 2024, Bil alcançou um feito histórico: conquistou índice técnico para disputar a tradicional Maratona de Boston, participando da edição de número 128.
Reconhecida mundialmente como a maratona mais antiga e uma das mais prestigiadas do planeta, a prova é considerada por muitos atletas como uma verdadeira “Copa do Mundo” do maratonista amador. Para garantir a vaga, não basta apenas o desejo de participar. É necessário atingir o rigoroso índice técnico dentro do período estabelecido pela organização, além de providenciar visto para entrada nos Estados Unidos e viabilizar os recursos financeiros para custear inscrição, passagens, hospedagem e demais despesas — um investimento significativo.

Rotina intensa e disciplina
A preparação do atleta envolve, em média, 90 quilômetros semanais de treinos, combinando rodagens longas, trabalhos de intensidade e fortalecimento muscular. A rotina inclui ainda alimentação equilibrada e atenção criteriosa ao descanso, fator essencial para a recuperação e prevenção de lesões.
Para Bil, a maratona vai muito além da resistência física. Segundo ele, trata-se de uma prova que exige preparo mental equivalente ao físico. Durante os 42.195 metros, há um diálogo constante entre corpo e mente. Em determinados momentos, ambos parecem testar os limites do atleta.
Concentração, estratégia e controle de ritmo precisam ser mantidos do início ao fim. O relaxamento só é permitido após a linha de chegada — instante em que o corpo pode finalmente ceder e o emocional se liberta, revelando a intensidade de meses de dedicação.
No entendimento do corredor, a maratona não acontece apenas no dia da competição. Ela é construída ao longo de aproximadamente três meses de ciclo específico de treinos, período marcado por disciplina, renúncias e foco constante. Dormir cedo antes de treinos importantes e acordar às quatro da manhã para conciliar compromissos profissionais e familiares com a preparação esportiva fazem parte de uma rotina pouco visível para a maioria das pessoas.
Antes das seis horas, quando muitos ainda iniciam o dia, o atleta já está nas ruas cumprindo o planejamento estabelecido. “Fazer o que precisa ser feito” é um dos lemas que norteiam sua jornada.
Apoio que faz a diferença
Na edição de 2024 da Maratona de Boston, praticamente todo o custeio da viagem foi realizado com recursos próprios. Parte do valor foi viabilizada por meio de uma ação solidária organizada por amigos atletas, que arrecadaram pouco mais de R$ 2 mil para contribuir com a realização do sonho.
Bil também contou com o apoio de amigos de longa data residentes nos Estados Unidos, que o acolheram em sua casa na região de Boston, oferecendo suporte fundamental nos dias que antecederam e sucederam a prova.
*Novo desafio em 2026*
Agora, o atleta se prepara para retornar à Maratona de Boston, desta vez na histórica edição 130, prevista para 2026. O desafio, no entanto, vai além dos treinos.
Para viabilizar a nova participação, foi estruturado o projeto “BIL IN BOSTON”, apresentado a empresas locais e regionais em busca de apoio. Até o momento, o retorno ainda não foi concretizado, evidenciando uma das maiores dificuldades enfrentadas por atletas amadores no Brasil: a captação de recursos.
Segundo o corredor, a luta do atleta amador está diretamente ligada ao suporte financeiro. Embora o esporte represente saúde, disciplina e inspiração social, muitas vezes iniciativas dessa natureza enfrentam limitações pela falta de investimento.
Mesmo diante dos desafios, o montes-clarense segue firme na preparação, determinado a levar novamente o nome de Montes Claros para uma das provas mais emblemáticas do mundo. Para ele, na maratona — assim como na vida — constância, foco e perseverança são determinantes para cruzar a linha de chegada.





