Isso não foi desabafo. Foi violência!

Confira a coluna Aprenda com quem Sabe desta semana, por Lete Lucena

Na comunicação que cura, precisamos falar também sobre a comunicação que fere.

Na última partida do Bragantino, o jogador Gustavo Gómez declarou que o time perdeu porque o jogo foi apitado por uma mulher. Vejam só!

A árbitra era Edina Alves. E não, isso não é apenas opinião no calor da emoção. Isso é linguagem violenta.


Quando um atleta associa a derrota ao fato de a arbitragem ser feminina, ele não está analisando lances técnicos, ele está desqualificando uma profissional pela condição de ser mulher. Isso é muito grave. Porque a mensagem não atinge só uma pessoa. Ela reforça a ideia de que mulheres são menos competentes, menos preparadas, menos capazes de ocupar espaços de autoridade.

Porque a linguagem constrói realidades, quando alguém em posição de visibilidade usa esse tipo de argumento, legitima o preconceito; naturaliza a exclusão; ensina ainda que – indiretamente -, o erro não está na estratégia, no desempenho ou nas escolhas do time, mas no gênero de quem apita. Isso é covarde. É mais fácil atacar quem historicamente precisou lutar para estar ali do que assumir responsabilidades.

Por isso a necessidade da comunicação que cura, pois somente por meio dela é possível assumir erros, reconhecer limites e analisar racionalmente fatos.

Em contrapartida, comunicação que adoece é aquela que transfere culpa para o corpo do outro. Não houve crítica técnica, até mesmo porque a atuação da árbrita foi impecável, foi corretíssima, segundo especialistas da área.

A fala do jogador perdedor é ataque identitário. E ataque identitário é violência simbólica, porque
palavras têm peso. Afinal, um comentário como esse ecoa em meninas que sonham ocupar espaços no esporte. Ecoa em mulheres que enfrentam diariamente a desconfiança sobre sua competência. Ecoa em ambientes onde ainda se tenta provar que liderança não tem gênero.

Não se trata de cancelar. Trata-se de responsabilizar. Quem fala para milhões precisa entender que não fala só por si. Fala para a sociedade inteira.

Se queremos sociedade mais justa, precisamos começar pelo básico: parar de usar a linguagem como arma. Porque quando a fala desumaniza, ela não é opinião: é agressão.