Quem define quem pode ser mãe?

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

Em teoria, a maternidade é uma escolha. Na prática, ela é um território vigiado.

Nem todas as mulheres que desejam ser mães são consideradas legítimas para ocupar esse lugar. Algumas precisam provar, o tempo todo, que são “capazes”. Outras sequer chegam a ser vistas como possíveis mães. A pergunta não é se querem ser mães, mas quem autoriza essa maternidade a existir.

Essa lógica não é nova. Ela é antiga. Antiga o suficiente para encontrar respaldo na filosofia clássica. Aristóteles afirmava que a mulher seria um “macho deformado”. Não era apenas uma metáfora infeliz. Essa ideia afirmou, por séculos, o pensamento ocidental: o corpo masculino como medida do humano completo; o corpo feminino como falta, desvio, incompletude. Quando a deficiência entra nessa equação, o efeito é devastador. O corpo que já não corresponde ao ideal masculino, racional e autônomo passa a ser visto como ainda mais distante do que se considera plenamente humano.


Não é coincidência que, historicamente, corpos femininos com deficiência tenham sido tratados como frágeis, dependentes, e, portanto, menos confiáveis para cuidar de outros. É a partir dessa herança que muitas maternidades seguem sendo colocadas sob suspeita.

Quando falamos de mulheres com deficiência, por doenças crônicas, por sofrimento psíquico, pela pobreza, pelo racismo ou pela idade, a maternidade deixa de ser um direito presumido e passa a ser um campo de julgamento constante. Quem define quem pode ser mãe?

A medicina ? O Estado ? Os serviços sociais ? A escola ? A opinião pública? Ou todos juntos, lado a lado?
O modelo dominante de maternidade ideal continua sendo estreito: mulher adulta, branca, heterossexual, saudável, economicamente estável, com um marido por perto e uma casa organizada. Tudo o que escapa desse enquadramento vira risco. Ou erro. Ou irresponsabilidade.

Nesse cenário, algumas maternidades são celebradas. Outras são toleradas. E muitas são ativamente combatidas.

Mulheres em situação de deficiência convivem com um medo persistente: o de terem sua competência materna questionada ou, no limite, retirada. A ameaça da perda da guarda não é abstrata. Ela paira como possibilidade real. Não importa se a deficiência veio antes ou depois da maternidade. A vigilância é contínua. Em vez de perguntar como apoiar, as estruturas costumam perguntar se essa mulher deveria estar ali.

Há uma contradição profunda nisso tudo. A maternidade nunca foi, historicamente, um ato solitário. Ela sempre envolveu redes, apoio, interdependência e adaptação. Ainda assim, o ideal contemporâneo exige uma mãe autossuficiente, produtiva, emocionalmente estável e fisicamente disponível. Quando essa performance falha, o problema recai sobre a mulher, nunca sobre as condições sociais que a cercam.

Ser mãe, nesses contextos, é um ato de coragem cotidiana. Coragem de continuar apesar do julgamento. Apesar da burocracia. Apesar da necessidade constante de se explicar. Apesar do risco permanente de ser considerada inadequada.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “essa mulher pode ser mãe?”, mas outra, bem mais incômoda.
Por que algumas maternidades precisam ser justificadas o tempo todo, enquanto outras nunca são questionadas?

Enquanto a maternidade continuar sendo tratada como um privilégio concedido e não como uma experiência diversa, relacional e humana, muitas mulheres seguirão mater­nando sob suspeita.

Revisitar Aristóteles hoje não é apenas um exercício de reflexão acadêmica. É reconhecer que ainda carregamos, nas políticas, nos discursos e nos olhares, a ideia de que certos corpos são menos aptos a gerar, cuidar e amar. Questionar quem define quem pode ser mãe é, no fundo, questionar quem ainda insiste em decidir a capacidade de escolha de cada mulher.