A fotografia foi registrada em frente ao sobrado do Coronel Idalino Ribeiro, hoje sede da Prefeitura Municipal de Salinas, é mais do que um retrato coletivo.
Trata-se de um documento histórico que revela como o poder se organizava, se apresentava e se legitimava no interior de Minas Gerais nas primeiras décadas do século XX.
Na imagem estão reunidas as principais autoridades políticas, religiosas e intelectuais da cidade.
Usando boina, o Coronel Idalino Ribeiro aparece como o principal chefe político da época, símbolo do coronelismo que estruturava a vida pública local.
Ao seu lado, sem chapéu, está o então prefeito Mendo Corrêa, representando o poder institucional do município.
Também integra o grupo Moyses Ladeia, de terno cinza claro, que viria a ocupar o cargo de prefeito nos anos 1940, sinalizando a continuidade das elites políticas locais.
O professor Elídio Duque, o mais alto entre os presentes, surge como representação do papel da educação, enquanto Frei Clemenciano, vigário de Salinas, evidencia a influência central da Igreja na organização social da época.
Próximo ao religioso está o Dr. Benjamin, compondo o quadro das lideranças técnicas e intelectuais.
À margem do protocolo formal da fotografia, aparece um menino de bermuda: João Costa. Sua presença desloca o olhar.
Em meio aos homens que exercem poder, a criança representa o tempo que observa, aprende e atravessa gerações.
É ele quem, anos depois, guarda a memória da cena e permite que ela chegue até nós.
Os demais integrantes da fotografia permanecem sem identificação nominal.
Esse silêncio também é parte da história: a memória oficial sempre registrou alguns nomes enquanto outros ficaram dissolvidos na multidão.

A restauração e colorização da imagem devolvem vida a um momento decisivo da história de Salinas, permitindo que se perceba não apenas quem estava presente, mas como se estruturavam as relações de poder, prestígio e autoridade naquele período.
Mais do que um registro do passado, a fotografia segue como espelho.
O mesmo prédio, novas administrações, outros discursos, mas a memória permanece, lembrando que compreender o presente exige olhar com atenção para as imagens que nos formaram.
Muitos personagens dessa foto permanecem anônimos.
E talvez aí esteja a beleza: nem toda memória precisa de nome para existir.
Alguns rostos ficam como símbolo do coletivo, da cidade em construção.
A coluna consegue ir além do registro histórico e transforma a fotografia de 1935 em documento vivo.
Ao identificar personagens, situar o espaço e interpretar os gestos, ela revela que a imagem não é apenas um retrato de autoridades, mas a encenação simbólica do poder em Salinas naquele tempo.
A leitura é precisa ao mostrar que a fotografia organiza hierarquias, silêncios e presenças: quem está no centro, quem ocupa a lateral, quem veste o que, quem representa o saber, a fé, a lei e a política. Nada ali é casual.
Ao mesmo tempo, não deixo a coluna cair na frieza acadêmica.
Há poesia contida, quase escondida, que humaniza a cena e lembra que por trás dos cargos havia homens, trajetórias, contradições e um município em formação.
As conclusões são equilibradas: não condenam nem celebram, mas interpretam.
Mostram que a fotografia é memória, mas também é construção, e que olhar para 1935 é, inevitavelmente, pensar no presente e nas permanências do poder local.
Trata-se de uma coluna que respeita a história, ilumina a imagem e convida o leitor a olhar de novo, com mais cuidado e menos ingenuidade.
Fonte da foto original: Arquivo João Costa: figura de um menino, ele é a testemunha silenciosa.
Enquanto os homens posavam para a posteridade de seus cargos, o menino João guardava a posteridade na memória.
É ele quem, quase um século depois, retiraria essa cena da poeira do esquecimento para nos entregar como herança.
O dono do acervo é, poeticamente, o garoto que decidiu não deixar o passado morrer.
Restauração e colorização: Luiz Francisco Dias





