Polícia Civil prende mulher acusada de torturar e provocar queimaduras com chapinha e ferro de passar no namorado por ciúmes, em Montes Claros

Pressão psicológica, ameaças e falsa autoridade: vítima relata que a agressora dizia que ele “merecia” os castigos, demonstrava prazer ao provocar os ferimentos e ameaçava matar seus familiares caso ele contasse os fatos, além de afirmar ser delegada de polícia em São Paulo e estar monitorando seus passos.
Foto: Webterra / Divulgação

A Polícia Civil de Minas Gerais realizou, na manhã desta terça-feira (3), uma coletiva de imprensa para apresentar a conclusão das investigações sobre o caso de tortura que deixou um jovem de 21 anos gravemente ferido em novembro do ano passado, em Montes Claros, no Norte de Minas.

As informações foram repassadas pelo delegado Bruno Rezende e pela delegada Monique Bicalho, com a participação da escrivã Andreia e da investigadora Daniela. Segundo a Polícia Civil, as investigações tiveram início no dia 13 de janeiro deste ano, quando o jovem procurou a delegacia relatando que teria sido vítima de tortura praticada pela ex-companheira e pelo atual namorado dela.

Na ocasião, o jovem afirmou que os fatos teriam ocorrido quando foi até a residência da ex para buscar alguns pertences do período em que mantiveram um relacionamento. Conforme a versão inicial apresentada, a ida ao local teria ocorrido a pedido da atual companheira, que demonstrava ciúmes e desejava que ele encerrasse qualquer vínculo com a ex. Ainda segundo o depoimento, o jovem relatou ter sido agredido por motivos de ciúmes, inclusive com o uso de um ferro de passar roupas e uma prancha de cerâmica, conhecida popularmente como chapinha.


A vítima apresentou fotos e laudos médicos que comprovavam diversos ferimentos pelo corpo, com lesões nas mãos, pernas, costas e abdômen. Ele chegou a permanecer internado por cerca de 20 a 30 dias para tratamento de queimaduras graves em várias partes do corpo. Na delegacia, o jovem estava acompanhado da atual companheira, uma mulher de 33 anos, que foi ouvida inicialmente como testemunha e confirmou a versão apresentada por ele. Com o avanço das investigações, ficou constatado que ela era a autora das agressões, sendo posteriormente presa e permanecendo à disposição da Justiça.

No entanto, de acordo com a delegada Monique Bicalho, ao longo das investigações, a Polícia Civil identificou contradições no relato do jovem. Análises de conversas por celular, registros de corridas por aplicativo e outros elementos técnicos comprovaram que a versão apresentada inicialmente não correspondia aos fatos, levantando a suspeita de que ele poderia estar sendo coagido ou induzido a incriminar a ex-companheira.

Durante a apuração, foi constatado que o jovem, a atual companheira, a ex-namorada e o namorado dela trabalham na mesma empresa. A investigação apontou que a atual companheira demonstrava ciúmes excessivos da relação profissional e passada do jovem com a ex.

A versão apresentada pelo jovem foi desmentida pela ex-namorada, de 32 anos, e pelo atual companheiro dela. Ambos colaboraram com as investigações e apresentaram provas de que nunca tiveram desentendimentos ou agressões com o rapaz. Eles relataram, inclusive, que já desconfiavam que o jovem vinha sendo agredido pela atual companheira, devido a episódios frequentes de ciúmes e ao fato de ele aparecer no trabalho diversas vezes com ferimentos visíveis, como mãos enfaixadas e arranhões.

Pressionado pelas provas reunidas, o jovem acabou admitindo que as agressões eram, na verdade, praticadas pela atual companheira, com quem mantinha um relacionamento desde outubro de 2025, e que teria sido orientado por ela a inventar toda a história para incriminar a ex. Segundo a Polícia Civil, durante os depoimentos, ficou evidente que o jovem se encontrava em situação de extrema vulnerabilidade emocional, chegando a acreditar que merecia sofrer as agressões.

Ainda conforme apurado, a mulher submetia o jovem a violência física e psicológica diária. Ele relatou que era constantemente questionado sobre sua rotina e, caso tivesse olhado para outra mulher na rua ou no ambiente de trabalho, era agredido com socos e murros. Com o passar do tempo, as agressões evoluíram para queimaduras provocadas com ferro de passar e chapinha, deixando-o, em alguns momentos, impossibilitado de realizar atividades básicas do dia a dia.

Segundo relato da vítima à Polícia Civil, a mulher demonstrava prazer em feri-lo, chegando a afirmar que gostava de ver os machucados “vermelhinhos” pelo corpo do jovem após as agressões. Além disso, exercia forte pressão psicológica, dizendo que ele merecia os castigos aplicados.

O jovem afirmou ainda que aceitava as agressões por medo da companheira, que o ameaçava de matar seus familiares caso ele revelasse os fatos. Conforme relatado à polícia, a mulher também costumava apontar carros que passavam na rua, afirmando que se tratavam de pessoas que o vigiavam a mando dela. Ela dizia ainda que estava em Montes Claros a trabalho, realizando atividades de investigação, reforçando a ideia de que tinha poder e influência sobre a vítima.

Durante a investigação, a Polícia Civil levantou a ficha criminal da suspeita e constatou que, em 2019, ela esteve envolvida em um homicídio no interior de São Paulo, quando matou um ex-namorado com um golpe de faca. À época, alegou legítima defesa e respondia ao processo em liberdade provisória.

Durante diligências na residência do casal, os policiais localizaram três chapinhas e um ferro de passar roupas. De acordo com a Polícia Civil, apenas o ferro estava escondido em um compartimento improvisado sob a cama do tipo box, semelhante a um baú, enquanto as chapinhas foram encontradas em outros pontos do imóvel. Os objetos eram utilizados nas agressões. Diante das provas reunidas, a mulher confessou os fatos, foi presa e permanece à disposição da Justiça.

Segundo a Polícia Civil, a investigada é considerada um risco potencial à vida da vítima. Caso seja condenada, a pena pode chegar a 20 a 30 anos de prisão.

Leila Santos
Leila Santos é jornalista, graduada pelas Faculdades Integradas do Norte de Minas (Funorte) desde 2019, e editora-chefe do Portal WebTerra. Possui experiência nas áreas de jornalismo, televisão, assessoria de imprensa e comunicação digital, com atuação em produção de conteúdo, gestão editorial, reportagem, apresentação, entrevistas, redação, revisão de textos, roteirização, fotografia e edição de vídeos. Pauta sua atuação pela ética, credibilidade e compromisso com a informação de qualidade. Apaixonada pela leitura e por causas sociais, acredita no jornalismo como ferramenta de transformação e serviço à sociedade.