Fui inspirado em Guimarães Rosa.
Não para imitá-lo, porque Rosa não se imita.
Ele me ensinou que o sertão não é geografia: é estado de espírito, é pergunta sem resposta pronta, é travessia que nunca termina.
Em Grande Sertão: veredas, aprendi que o caminho verdadeiro é torto, que o bem e o mal moram misturados, e que a palavra precisa ter coragem para dizer o indizível.
Que vereda é água escondida, é pausa no meio da secura, é sentido brotando onde ninguém espera.
Com Mia Couto, aprendi outra lição essencial: que a terra fala, que a paisagem guarda memória, e que a palavra, quando nasce do chão, também pode curar feridas invisíveis. Mia me ensinou que não se escreve sobre a terra, escreve-se com ela.
Em Sal da terra: cerrados, sigo tentando honrar essas heranças, escrevendo com o pé fincado neste universo, com os olhos atentos aos sinais da terra e com a escuta voltada para quem vive, resiste e permanece.
Se Rosa atravessou o sertão para entender o homem, e Mia escutou a terra para não perder a alma, eu caminho o Cerrado para entender a vida.
Porque quem escreve a partir da terra,
não escreve sozinho. Escreve acompanhado dos que vieram antes, dos que ficaram, e dos que ainda virão.
E no fundo, como eles ensinaram: o sertão, a savana, e o Cerrado, é dentro da gente.
Guimarães Rosa me ensinou a atravessar o sertão por dentro. Mia Couto me ensinou a escutar a terra como quem escuta um ancião.

Em Sal da terra: cerrados, escrevo tentando honrar esses aprendizados: com o pé no chão, a palavra enraizada, e a alma funda como vereda.
Grande Sertão: veredas e Sal da terra: cerrados dialogam como dois rios que nascem em tempos distintos, mas bebem da mesma nascente profunda: a terra como escola da alma.
E nessa confluência também corre Mia Couto, africano de palavras-rio, que nos ensinou que a paisagem pensa, que a língua tem raiz e que o chão guarda memória.
Desde o título, o paralelo já se anuncia.
Em Grande Sertão: veredas, o sertão é vastidão e enigma; as veredas, fendas de água e sentido no meio da aridez. São caminhos estreitos onde a vida insiste, onde o homem se encontra consigo mesmo.
Em Sal da terra: cerrados, o título carrega matéria e missão: o sal que preserva, dá sabor e impede a corrupção; a terra que sustenta, dói, ensina; o Cerrado como corpo vivo, ferido e sagrado ao mesmo tempo.
Se em Rosa o sertão é travessia metafísica, aqui o Cerrado é permanência em luta, permanecer também é atravessar.
E em Mia Couto, a terra é verbo: fala, sonha, lembra. Não é chão mudo, é um corpo ancestral que narra o mundo por dentro.
Nos três, o território não é cenário: é personagem.
Riobaldo não caminha sobre o sertão; ele é moldado por ele. Aprende que o bem e o mal não moram em extremos claros, mas se misturam como água barrenta de vereda.

Em Sal da terra: cerrados, o homem também não domina a paisagem: aprende a ler seus sinais, seus ciclos, seus silêncios.
Cerrado ensina com secas, esperas, brotações repentinas. Não há pressa, há tempo.
Mia Couto, por sua vez, nos lembra que a paisagem também nos escreve, que somos feitos das palavras da terra onde pisamos.
Ambos partem da oralidade e da memória.
Rosa constrói um sertão falado, rezado, duvidado. Cada frase é curva de rio, cheia de espanto e ambiguidade.
Sal da terra: cerrados fala a partir do chão, da vivência, do saber que não veio dos livros, mas da lida, da observação, da escuta do vento e da terra rachada. É uma escrita que não explica: testemunha.
Mia Couto costura a língua com poesia e ancestralidade, ensinando que a palavra não descreve a vida — ela a reinventa para que sobreviva.
O conflito central é semelhante: como seguir sendo humano num mundo duro?
Riobaldo questiona Deus, o diabo, o destino, o amor e a coragem. Sua grande guerra é interior.
No Cerrado de Sal da terra, a guerra é silenciosa e cotidiana: contra o esquecimento, contra a expulsão, contra o apagamento dos modos de vida. Mas também aqui a luta maior é ética e espiritual: permanecer sem perder a essência.
Em Mia Couto, a batalha é contra o esquecimento da alma, contra a pobreza de sentido, contra a morte da imaginação que sustenta os povos.
Se Grande Sertão: veredas pergunta se o diabo existe? Sal da terra: cerrados pergunta se ainda existe escuta, cuidado, compromisso com o que sustenta a vida?
E Mia Couto pergunta se ainda sabemos sonhar com os pés no chão?
Um interroga o mal.
Outro, a indiferença.
O terceiro, o esquecimento.
No fundo, os três dizem a mesma coisa com vozes distintas: o sertão, seja de veredas, de cerrados ou de savanas africanas, não é atraso.
É profundidade.
É lugar onde a vida se revela sem maquiagem.
Onde atravessar é aprender.
Onde ficar é resistir.
Onde contar histórias é um ato de sobrevivência.
E talvez a maior lição comum seja esta:
quem entende a terra, entende o mundo.
Porque ali, onde o chão é duro,
a alma precisa ser funda.





