A construção da violência

Confira a coluna Aprenda com Quem Sabe desta semana, por Lete Lucena
O cão comunitário Orelha: polícia investiga morte após ataque de adolescentes

Quando vi a notícia sobre o cachorro Orelha, assassinado por três adolescentes, senti vergonha da nossa sociedade.
Não é só tristeza. É alerta.
Quem machuca um animal indefeso já perdeu algo dentro de si.

Esse crudelíssimo crime não fala apenas sobre um animal. Alerta-nos sobre o que estamos formando dentro de casa, nas escolas e na sociedade, porque quando alguém é capaz de ferir um ser indefeso, algo essencial já se perdeu: a capacidade de sentir o outro.

Violência não surge do nada. Ela é construída:
na casa sem diálogo;
no adulto que “passa pano”; na escola que silencia;
na sociedade que relativiza.


Violência começa nas pequenas atitudes ignoradas, nas piadas sobre o sofrimento, na indiferença diante do errado. Antes de atingir pessoas, muitos aprendem a machucar aquilo que não reage.

Comunicação não é só falar. É ensinar empatia. É ajudar crianças e jovens a nomearem emoções, a lidarem com frustrações, a respeitarem a vida. Onde existe escuta, afeto e orientação, a violência encontra menos espaço para crescer. Educar também é cuidar da forma como se fala, se corrige e se ama.

Quem faz isso com um cachorro, faz isso com gente. A diferença está apenas na oportunidade. Não podemos tratar como caso isolado aquilo que é reflexo de uma sociedade adoecida. Comunicação que cura também previne. O amor ensinado hoje é a violência evitada amanhã.

Talvez o maior perigo não esteja apenas no ato, mas no que ele revela: geração que aprende a viver sem sentir. Quando a dor do outro não nos atravessa, algo essencial se rompe. Humanidade não é nascer gente. É tornar-se. E isso só acontece quando alguém nos ensina, com palavras e exemplos, que toda vida importa. Onde não há esse aprendizado, cresce o vazio. E o vazio, cedo ou tarde, transborda em violência, como outrora afirmou Hannah Arendt: “A violência começa onde termina a palavra.”