Seu filho também fica com a boca suja após comer? Um alerta ignorado

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado
Leia a Coluna Toda Mãe é Cientista - Foto: Cylene Medrado/Divulgação
Leia a Coluna Toda Mãe é Cientista - Foto: Cylene Medrado/Divulgação

Hoje, como em tantos outros dias, precisei lembrar o Matheus de limpar a boca depois de comer. Ele tem 15 anos. E sim, ainda esquece.

Pode parecer um detalhe pequeno, quase banal. Mas, para nós, mães atípicas, esses “detalhes” fazem parte de uma rotina intensa, desafiadora e, muitas vezes, solitária.

O que vem depois?

Desde cedo, ouvimos que nossos filhos precisam andar, falar, aprender a ler e escrever. Esses são os marcos valorizados e celebrados. Mas quase ninguém fala sobre o que vem depois.


Pouco se fala sobre como estimular o autocuidado, a percepção do próprio corpo, a organização das ações do dia a dia. Pouquíssimos profissionais olham para isso como parte essencial do desenvolvimento. E, menos ainda, ensinam as famílias a fazer isso em casa.

Pertencimento

Mas eu te pergunto: como incluir um adolescente no mundo, no grupo social, no trabalho, se ele não percebe que está com a boca suja? Isso não é sobre aparência. É sobre dignidade, pertencimento, identidade. Essas habilidades aparentemente simples, como se limpar após comer, ajustar a roupa, organizar os próprios materiais, são a base da competência social esperada para cada faixa etária.

Adolescência

No caso do Mateus, que está na adolescência, esse tipo de comportamento influencia diretamente sua possibilidade de fazer amigos, ser aceito em grupos e se preparar para o futuro. E, se essas habilidades não forem desenvolvidas intencionalmente, o risco é de exclusão silenciosa. Como mãe, isso me angustia.

Reflexão para as mães atípicas

Como profissional da saúde, com trajetória na fonoaudiologia e na psicologia, isso me faz refletir sobre como ainda tratamos o desenvolvimento de pessoas com deficiência de forma fragmentada e funcional, esquecendo que o “viver social” também se aprende.

Talvez ninguém tenha te falado isso, mas você pode, e deve, conversar com os profissionais que acompanham seu filho sobre essas questões. Peça que eles também olhem para o cotidiano, para o corpo, para as ações que parecem simples, mas que têm enorme impacto na autonomia e inclusão.

Você não precisa dar conta disso sozinha

Autonomia se constrói com repetição, paciência e apoio, inclusive técnico.

Converse com o terapeuta ocupacional do seu filho sobre como trabalhar a sensibilidade tátil e o processamento sensorial, para que ele aprenda a perceber a presença do alimento no rosto, nos lábios, nas mãos.

Peça ao fonoaudiólogo estratégias que ajudem a ampliar essa consciência oral e facial, conectando linguagem, expressão e percepção do próprio corpo.

E, com o psicólogo, abra espaço para abordar as regras sociais que fazem parte da convivência: o que é esperado em cada contexto, como se adaptar sem perder a identidade, como conviver com mais autonomia e respeito.

Reivindique cuidados

Cada profissional pode atuar em uma parte desse processo, mas todos precisam olhar para o cotidiano, para o viver real, e não apenas para os marcos tradicionais do desenvolvimento. Reivindique esse cuidado.