Êxodo rural e falta de sucessores no Cerrado norte-mineiro

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

A agricultura familiar, um dos pilares da economia no norte de minas, enfrenta um desafio silencioso que pode comprometer seu futuro: a falta de sucessores no campo.

No Cerrado norte-mineiro, esse desafio ganha contornos ainda mais profundos, porque aqui o campo não é apenas espaço de produção, é território de vida, memória e resistência.

A saída dos jovens não acontece só por atração das cidades.


Ela é empurrada pela escassez de políticas públicas contínuas, pela dificuldade de acesso à terra, pela precariedade da infraestrutura, pela falta de internet de qualidade, de escolas contextualizadas e de crédito pensado para a agricultura familiar do Cerrado.

O resultado é um território que envelhece enquanto vê seus saberes tradicionais, de manejo da água, do solo, das sementes, do tempo da chuva, ameaçados de desaparecer.

No norte de Minas, a sucessão rural não é apenas uma questão econômica: é ecológica, cultural e social.

Quando um jovem deixa o campo, não vai apenas um trabalhador; vai um leitor do cerrado, alguém que sabe reconhecer o sinal da chuva no vento, o tempo certo do plantio, o cuidado com as veredas, o equilíbrio entre produção e conservação.

Sem sucessores, o risco não é só o abandono da terra, mas a ruptura de uma pedagogia ancestral que sempre sustentou esse território.

Ao mesmo tempo, o Cerrado norte-mineiro mostra que há caminhos possíveis.

Onde há formação contextualizada, acesso a tecnologias apropriadas, valorização da agroecologia, da produção de alimentos e do extrativismo sustentável, os jovens permanecem, ou retornam.

Programas como os da Emater, quando dialogam com a realidade local, apontam que sucessão não se impõe: se constrói com escuta, dignidade e perspectiva de futuro.

Pensar sucessão no Cerrado é repensar o modelo de desenvolvimento.

É garantir que o jovem não precise escolher entre viver com dignidade e permanecer na terra.

É reconhecer que produzir no Cerrado exige conhecimento, ciência e cultura, e que isso também é inovação.

Se a agricultura familiar quer futuro, ele passa pelo Cerrado norte-mineiro