Vaqueiros fora da curva

Confira a coluna Sal da Terra desta semana , por Milton Santiago

Nesta coluna, revisito o caminho da minha escrita em 2025 a partir da imagem do vaqueiro fora da curva que carrega tanto o sentido literal: (o vaqueiro que desaparece de vista ao seguir o gado em uma trilha sinuosa) quanto o figurado: (alguém excepcional, fora do comum).

Aqui uso a metáfora da “curva” e conecto a geografia do Cerrado à geografia da alma, como sempre faço em outras colunas.

Eu, menino ainda, morava num casarão antigo à beira de um rio, no coração do Cerrado, já entendia o que meus mestres expressavam.


Sabia no íntimo infantil que cada um de nós nasce com potencial para empreender uma jornada rumo ao extraordinário.

O vaqueiro apontava para aquela criança o caminho para a descoberta do seu potencial a fim de que pudesse encarar e superar os desafios por meio da luta.

Aquele território de veredas, de nascentes que sussurram vida, o vento que avisa antes de derramar a tempestade, de rios que carregam memórias, de flores e árvores que guardam segredos da minha infância, ali era meu mundo primeiro, onde o tempo parecia nascer junto comigo.

Tudo que escrevo são experiências vividas desde a infância, lembranças que o tempo não apaga porque brotaram na poeira quente das estradas, no cheiro de chuva que vinha rodando de longe, nas vozes antigas dos mestres que me guiavam antes mesmo que eu entendesse o mundo.

Foram eles, os velhos sábios do Cerrado/Gerais, que sopraram histórias no meu ouvido: contos de bichos e assombrações,
de coragem miúda que vira grande,
de gente que luta sem alarde,
de rios que não se entregam à seca, e outras observações de menino que carrego e guardo em segredos.

E, como toda terra encantada, tinha seus diferentes.
Gente que fugia do normal da jornada e desenhava outro rumo na travessia.

Entre todos, havia um vaqueiro, o meu mestre, meu guia de passos e histórias.

Um homem que não cabia nos moldes, que entendia a alma dos cavalos, que escutava os animais como quem lê um livro aberto.

Foi ele quem me ensinou, sem nunca usar essas palavras, que cada pessoa precisa descobrir a visão do caminho, o sentido da marcha.

Na travessia vem a forma de enfrentar o sol, a poeira, os atoleiros e os medos para seguir adiante.

No Cerrado, ninguém sobrevive sem saber para onde vai, mas também ninguém chega sem aprender como caminhar.

Foi esse vaqueiro quem mostrou ao menino que propósito não se grita, se conduz.

E que a arte de viver é parecida com a de tocar uma boiada: exige firmeza, silêncio, leitura do tempo e respeito ao caminho.

Vaqueiro fora da curva, é daqueles que não se explica de tão extraordinário que era.

Caminhava um passo à frente do tempo,
com a alma sempre em travessia.

Partiu deixando rastros de uma sabedoria antiga, quase um dom.

Foi ele quem ensinou ao menino que a poesia também pode usar chapéu de couro e que, no Cerrado, até o silêncio sabe cavalgar.

Sentado na calçada em frente de casa, eu assistia a um espetáculo que ainda hoje mora na minha memória: os vaqueiros que tocavam boiada rumo a Salinas.

Viajavam cedo, com passos firmes de quem sabe o chão que pisa, chapéus gastos pelo sol e aquela força ancestral que só os homens do Cerrado carregam.

A boiada seguia, levantando poeira, dando ao caminho ares de procissão antiga.

Eu, menino curioso, acompanhava com os olhos o trajeto até onde a estrada dobrava numa curva.

Ali, naquele ponto exato, acontecia meu primeiro mistério do mundo: tudo sumia.

Os vaqueiros, os bois, a poeira, o som.

A curva engolia o resto do caminho, como se dali em diante começasse um território secreto que só eles conheciam.

Depois da curva, o que havia?
Eu não sabia.
E nessa ignorância havia uma beleza inteira.

Imaginava tantas coisas: travessias por veredas, rios, atoleiros, sombras de pequizeiros.

Noites de fogueira acesa, causos de onça contados à beira do fogo, manhãs moldadas pelo canto do galo distante.

E quando os vaqueiros retornavam, eu, menino sonhador, indagava sobre o que acontecia depois da curva, e cada resposta vinha enrolada em mistério, sabedoria e riso.

Hoje, já homem crescido e poeta, entendo que muita coisa na vida é igual aos vaqueiros fora da curva: a gente enxerga até certo ponto, mas o resto é feito de travessias invisíveis.

O caminho que não vemos também nos forma com seus medos, seus silêncios e suas descobertas.

E assim sigo: lembrando os vaqueiros que sumiam na curva, lembrando o menino que eu era, lembrando que toda travessia, cedo ou tarde, nos leva de volta para casa.

Porque a memória é isso: um reencontro com o que nos fez ser quem somos.

São lembranças maravilhosas e ricas, e é delas que nascem minha poesia, minha alma e minha voz.

São colunas marcadas por forte lirismo, onde o Cerrado deixa de ser apenas paisagem e passa a ser metáfora da existência.

Em textos como vaqueiros fora da curva, gosto de unir a geografia e alma, mostrando personagens que caminham alguns passos à frente do tempo, numa travessia externa e interna.

Assim como eles somem no rastro do gado, nós também dobramos as esquinas do tempo sem saber o que vem depois.

Ser fora da curva não é apenas ser melhor, é ter a audácia de seguir quando quando tudo parece misterioso, dominando a arte de conduzir.

Carrego no que escrevo o chão que me formou, as veredas da infância e a certeza de que o Cerrado cria gente forte, sensível e verdadeira.

E cada um de nós nasceu com potencial para empreender uma jornada rumo ao extraordinário.

Mas nem todos têm coragem de dobrar a curva.