Dedicada a um dos meus mestres: Daniel Antunes Júnior (17.09.1921 – 09.12.2025)

Homem de passos lentos e alma boa, que fez uma longa travessia em mais de um século pelos GERAIS, com a serenidade de quem conhece o valor da memória, da história, da escuta e do tempo.
Ele me dizia: a travessia pelo Cerrado é como escrever um livro, onde cada vereda ensina a língua da terra para quem caminha devagar e sabe escutar.
Que tua memória permaneça viva como o sol, as nascentes e as árvores do Cerrado: firme na raiz, silenciosa no gesto, e luz mansa a iluminar travessias.
Há terras que se impõem pela exuberância, como a caatinga. E há o Cerrado: mestre silencioso que ensina em sussurros, testando a alma de quem se dispõe a escutá-lo, como meu pai fez por toda a sua travessia.

Ele também dizia: Cerrado e Gerais são apenas dois nomes para a mesma vastidão:
a mesma terra que se deita larga,
a mesma luz que incendeia as tardes,
o mesmo silêncio que ensina,
o mesmo território que guarda histórias e memórias.
Aqui, tudo é lição: o que rasga e o que costura, o que fere e o que ensina a remendar.
Nada se desperdiça, nem a dor, nem o silêncio.
Tudo vira ferramenta, a sabedoria verdadeira nasce do movimento entre opostos.
No Cerrado, aprendi que há quem rasgue o caminho e há quem costure o que foi rasgado.
A vida, por aqui, é sempre dialética: primeiro rompe para depois unir, primeiro fere para obrigar a aprender a remendar.
É nesse exercício de desfazer e refazer que o Cerrado revela sua lógica precisa, uma lógica que não desperdiça dor, mas a transforma em ferramenta.
Também aprendi que saber se ajoelhar não é sinal de fraqueza, mas de sabedoria.
Quando percebemos que tudo se move sob nós: raízes, água, tempo, destino, é preciso se curvar para não cair.
A dureza, no Cerrado, é sempre castigada. Já a humildade permanece firme, como a árvore torta que resiste aos séculos porque soube ceder ao vento na hora certa.
E o vento… ah, o vento do Cerrado não é apenas corrente de ar; é aviso, é conversa antiga.
Ele vem antes da tempestade, mastiga poeira, empurra sombras e deixa pistas para quem sabe escutar.
Às vezes, a vida é mais voraz do que a gente imaginava: vem com dentes de vento, com pressa de temporal.
E justamente por isso a natureza ensina: busque abrigo antes da tormenta. Prever não é temer, é o modo como a vida protege os que escolhem continuar.
Quem sabe ler o vento entende sua fala torta, seu recado escondido.
Compreende que há sinais que chegam antes da queda, antes da perda, antes do desvio.
O vento conversa com quem se dispõe a ouvir, e sopra verdades que o mundo só revela tarde demais.
E no fim, há um ensinamento que fecha o ciclo, talvez o mais duro, talvez o mais justo: recolhe o estilhaço quem um dia espalhou os cacos.
No Cerrado, tudo retorna. Cada gesto lança raízes. Cada palavra cria rastros. Cada ação volta, como semente, florescendo ou ferindo, conforme o que se plantou. A natureza cobra, mas nunca injustamente.
O Cerrado, porém, não se limita ao visível. Ele opera também na zona cinzenta das incertezas.
O silêncio esconde segredos, a incerteza oferece mistérios, e ambos são matéria-prima de quem faz travessias por suas veredas.
É simples: no Cerrado, cada dúvida é um convite, cada sombra é um anúncio, cada silêncio é quase uma profecia.
Porque esta terra sábia, antiga não se entrega inteira. Revela-se em parcelas, como quem testa o coração de quem veio para ficar.
E assim o Cerrado ensina: na lição que cura, no rasgo e na costura, no vento que avisa, no chão que se move.
Ensina que viver é aprender a ler os sinais: das nuvens, anunciando as chuvas. E responder a eles com coragem, com humildade e, sobretudo, com a mão que costura o que o coração um dia rasgou.
Viver no Cerrado, é aceitar que o mistério não assusta, orienta.
É nele que reside a força de quem faz a travessia, sem mapa, mas com fé no caminho.
Porque nesta terra, a dúvida é sempre o primeiro passo da revelação. E quem aprende isso jamais se perde.
Reafirmo que o mestre conhece o tempo das chuvas, o silêncio das veredas, a resistência das árvores tortas e a sabedoria das raízes profundas.
Respeita os ciclos da vida, lê sinais do vento, do chão e nas águas, transformando convivência em conhecimento,
E passa adiante, em gesto, palavra ou exemplo, o que o Cerrado lhe confiou.
No fundo, o Mestre do Cerrado é quem compreendeu que viver ali é travessia: firme, humilde e em harmonia com a natureza.
Pois é, para o meu mestre eu escrevi esta coluna para te eternizar.
Não para te ver em fotografia,
mas para te espalhar pelo mundo,
porque mestres do Cerrado não partem,
viram travessia, sombra boa,
e conselhos vivos na minha poesia.

Te eternizei em palavras
do mesmo jeito que você ensinou a viver:
sem pressa, com firmeza,
respeitando a terra, a memória
e o silêncio que também educa.
Agora sua lição segue caminhando,
lendo gente, formando almas,
como raiz que ninguém vê,
mas sustenta tudo.





