A palavra parto tem uma força curiosa. Foi aí que pensei nas histórias de parto que crescem junto com a gente. E nas que não crescem porque nunca foram contadas. Minha mãe, por exemplo, falou pouco sobre o meu nascimento. Talvez porque parir gêmeas não dá espaço para detalhes: é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que a narrativa vira mais um registro de sobrevivência do que uma história tão inesquecível. Provavelmente foi cansativo, caótico, corrido e, no fim das contas, suficiente dizer apenas: “nasceram”.
Mas não importa quantas vezes a gente a escute, a palavra “parto” sempre parece anunciar o começo de uma história de vida. Mas quando uma criança nasce com deficiência, a história muda. O clímax do nascimento é substituído pela “tragédia” de um diagnóstico, que declara o fim daquela história antes mesmo que ela comece. Esse é o tipo de narrativa que ocorre frequentemente com mães atípicas ainda na maternidade. Curioso notar que a terminologia usada no parto “normal” cria a expectativa por aqueles que aguardam um bebê “normal”. E talvez o mais doloroso seja perceber que, na linguagem médica, já existe uma promessa implícita: se é “normal”, então tudo irá bem; se não é, algo deu errado e, quase sempre, isso recai sobre o corpo da criança ou sobre a mãe. E talvez seja por isso que a nova mãe atípica é destituída do direito de sonhar com o futuro do seu bebê, já que ali na maternidade os profissionais de saúde assumem a construção da narrativa de uma vida fadada ao fracasso. É como se a história que deveria começar no colo começasse, na verdade, num laudo.
Recentemente fui convidada a dar uma palestra sobre maternidade atípica para profissionais da saúde. Quando pensei no que compartilhar, escolhi o básico: o nascimento do meu filho e o diagnóstico de Síndrome de Down. Era a história que eu conhecia de cor, aquela que sempre usei para explicar nossa trajetória inicial. Simples, direta e familiar. Só que dessa vez eu li o que eu mesma tinha escrito. E ali aconteceu outro parto. Percebi que aquela história, tantas vezes dita, nunca tinha sido realmente ouvida por mim mesma. Percebi que, ao me ouvir, eu me tornava duas pessoas ao mesmo tempo: quem conta e quem recebe. E essa posição dupla fez tudo soar diferente, mais vivo, mais real, mais meu. Era como se eu finalmente tivesse me permitido nascer dentro da minha própria história.
Isso tudo revelou outras versões de mim que, por muito tempo, ficaram silenciosas, esperando coragem para nascer. Porque parto não é só o início de uma vida. É o início de um olhar. De uma narrativa que se reescreve. Que se cura. Que encontra seu próprio final feliz. Que este texto faça nascer em você um movimento de empatia e um olhar sensível e verdadeiramente disposto a acolher a diversidade humana.





