Toda urgência tem uma mãe

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

Quem passa pela sala de espera de uma urgência de hospital e observa um pouquinho vai ver: a luz fria, a fila de espera, cadeiras cheias, crianças no colo e mães inquietas.

Um choro aqui, uma tosse ali, o arrastar de um chinelo às três da manhã.

E, no meio de tudo, sempre, a mesma cena: toda urgência tem uma mãe.


Quase sempre sozinha. 

As mães estão espalhadas por todo o corredor frio do hospital: segurando a testa ensanguentada porque o filho caiu da cama, ainda com a pantufa nos pés e o casaco jogado por cima; balançando o filho no colo para ver se o tempo passa mais rápido; levando os outros filhos junto e, enquanto aguardam o atendimento de um, alimentando o outro no corredor.  Tem mãe em pé, horas a fio, segurando meninas de 12 anos como se fossem bebês de colo, só para consolar a dor.

E, quando olho em volta, vejo poucas mães com um pai ao lado.
A maioria deles tem a justificativa de trabalhar o dia todo. Eles estão cansados, afinal provêm e sustentam a família. Mas muitas mulheres também fazem isso: trabalham o dia todo, chegam exaustas, carregam o mesmo peso financeiro e ainda somam o emocional, o doméstico, o mental.

E há também as que não trabalham fora de casa, não porque “não fazem nada”, mas porque a profissão delas é justamente essa: cuidar da família, uma função integral, contínua e invisível, que exige o mesmo ou até mais do que qualquer emprego formal.

E há ainda um outro grupo, impossível de ignorar: os pais que simplesmente abandonaram. Os que não dividiram o turno, nem o cansaço, nem a responsabilidade. Os que desapareceram quando ficou difícil, quando o diagnóstico chegou, quando o cuidado apertou.Os que deixaram a mãe sozinha com a criança, com a rotina, com a vida inteira, como se a urgência fosse apenas dela.

São mães atípicas ou não. São mães que também provêm e que sustentam o afeto, a rotina, a presença e a estabilidade. E, mesmo assim, permanecem ali, inteiras, com seus filhos.Porque a mãe carrega a logística invisível da renúncia.

Escrevo este texto com todo respeito aos pais, de verdade.
Mas é impossível ignorar o que vejo todos os dias: as mães esperando os filhos na frente da escola, na terapia, nas reuniões, nos grupos de WhatsApp, nos corredores do hospital e até na porta de prédios públicos em manifestações, defendendo tratamentos, direitos, adaptações e tudo aquilo que o coração delas não permite deixar para depois.

Mas existe outra urgência, aquela que quase ninguém examina e ninguém chama pelo nome: a urgência de cuidar da mãe.
A urgência de não deixá-la sozinha no consultório, no corredor, na madrugada ou no manifesto.
A urgência de dividir responsabilidades, decisões e medos.
A urgência em dizer, com presença e responsabilidade:

“Eu seguro ele por um momento. Vai respirar.”
Esse filho também é urgência minha.
E cuidar de você também.