4º Encontro Nacional de Capoeira em Salinas: O Batizado do Poeta do Cerrado de Salinas

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Mestre Lua Nova e Muriel me batizaram como “Poeta do Cerrado e de Salinas”, durante o 4º Encontro de Capoeira em Salinas, onde me homenagearam com o Título de Benemérito.

Um evento que reúniu capoeiristas de vários estados do Brasil em Salinas para treinar, trocar experiências, aprender, ensinar e celebrar a cultura da capoeira.


Recebo esse Título como quem ouve o som do berimbau atravessar o tempo.

Ser chamado de Poeta do Cerrado e de Salinas é mais que um reconhecimento: é um reencontro com a minha própria história.

E Délio, com a firmeza de quem conhece o valor das raízes, diz:
“Ele é patrimônio de Salinas.”

Já Luciana numa entrevista de Milton Santiago para o programa Achamos em Minas da Rede Record, foi a primeira a reconhecer como poeta.

E as jornalistas do Webterra selaram o veredito.

É ouvir o murmúrio das veredas, o barulho das águas do Rio Salinas, o eco dos mestres da capoeira que dançam a vida e resistem em ritmo de ancestralidade.

Entre esses mestres, deixo meu respeito e gratidão especial ao Mestre Lua Nova e ao Grupo Axé Capoeira Salinas MG, que me acolheram com o coração aberto e transformaram a homenagem em um abraço coletivo — gesto de força, fé e memória.

Ser reconhecido como Poeta do Cerrado e de Salinas é mais que um título —
é um chamado.

É afirmar que a poesia também é uma forma de resistência,
que o canto e o gingado da capoeira de Lua Nova nascem do mesmo coração,
e que o povo que dança e canta sua história nunca será esquecido.

Agradeço a todos os mestres, capoeiristas e guardiões dessa cultura viva,
que transformam cada roda em celebração da vida.

Levo comigo a força desse gesto,
como quem carrega nas mãos a bandeira da minha terra, do Cerrado e de nossa gente.

Meu trabalho nasce desse chão.

Não é apenas arte, é testemunho.

Conta a história de um território, de um povo e de um modo de existir: o Cerrado que alimenta o rio, a roça, a fé e o sonho.

Cada imagem, cada palavra, cada traço que colho tem o cheiro do barro depois da chuva, o canto das seriemas ao entardecer, a flor e o fruto amarelado do pequi e a força de um povo que aprendeu a atravessar secas sem perder a esperança.

Em Salinas, o tempo não corre — amadurece.

Aqui, a pressa não tem serventia.

O que vale é o ciclo das águas, o brotar do milho, o retorno das chuvas, o nascer de cada manhã que insiste.

Os caminhos são de sal e memória, e o futuro se constrói com raízes, não com arranha-céus.

O Cerrado, tão mal compreendido, é mais que bioma: é alma.

É a seiva que sustenta o Brasil inteiro, mesmo sendo o mais silencioso dos biomas.

É dele que nascem os rios que matam a sede das cidades e alimentam a vida.

Mas essa alma está ferida — pelas queimadas, pela pressa e pelo esquecimento.

Por isso, contar a história de Salinas é também contar a história da resistência.

Cada vereda é um fio de tempo, cada nascente, uma lembrança.
E cada gesto de quem vive aqui é uma oração em defesa da terra.

Salinas, mãe das veredas, nascentes, rios e cerrados, é o coração que pulsa o ritmo antigo da natureza — o mesmo ritmo que o Brasil precisa voltar a escutar.

Axé, Salinas.
Axé, Cerrado.
Axé, poesia.

— Milton Santiago
Poeta, cronista e guardião das veredas do norte de Minas.