Salinas: mãe das veredas, nascentes, rios e Cerrados

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Antes que o mapa riscasse fronteiras,
Salinas era um corpo vivo de veredas, nascentes chapadas e cerrados, onde o vento brincava com as árvores, flores e o canto das águas nascia entre as raízes profundas das árvores retorcidas.

Era terra antiga, habitada por povos indígenas, que conheciam o segredo das plantas e falavam com os rios como quem reza. Sabia ler o seu mundo, os sinais da terra, das árvores e dos bichos. Entendiam os sinais das nuvens e o prenúncio das chuvas.


Vieram depois os colonos portugueses,
com suas cruzes, padres, espadas e esperanças, trazendo nos porões das embarcações os negros arrancados da África, que aqui semearam sua força, sua fé, seu canto e sua dor.

RUBELITA ERA AINDA SONHO DE PEDRA,
TAIOBEIRAS, UM RUMOR DE FOLHAS,
FRUTA DE LEITE, SONHAVA SER CIDADE,
NOVORIZONTE, AINDA POR NASCER,
E SANTA CRUZ, ORAÇÃO GUARDADA NA POEIRA DOS CAMINHOS.

Tudo era uma só alma, terra vermelha, rio, passarinho e esperança.
As nascentes corriam livres, alimentando rios que levavam a vida
como versos levados pelo vento.

Salinas, mãe antiga, guardava em seu ventre
a semente dessas cidades-filhas,
que brotaram do mesmo chão generoso
onde o Cerrado se fez berço e destino.

E ainda hoje, quando o sol repousa sobre o pequi maduro, e o cheiro da terra sobe após a chuva, “O Poeta do Cerrado e de Salinas” ouve-se no ar um murmúrio antigo, a lembrança do tempo
em que tudo era um só coração batendo
no meio do sertão.

Salinas, no coração do Norte de Minas Gerais, era uma grande vereda viva, onde a água e o cerrado se entrelaçam em harmonia.

Banhada por três rios — Salinas, Bananal e Ribeirão —, onde existiam muitas minas de sal-gema, nasceu daí o nome Salinas.

Entre rios que serpenteiam suas paisagens, a cidade floresce entre matas, campos e horizontes abertos, guardando a memória e a força do povo sertanejo.

Seu território é abraçado por municípios que partilham a mesma alma do cerrado — Taiobeiras, Santa Cruz de Salinas, Rubelita, Fruta de Leite, e Novorizonte. Juntos, formam um mosaico de natureza e cultura, onde a resistência do cerrado se expressa em cada vereda, em cada nascente e no canto das comunidades que convivem com o Cerrado.

Abdênago/Apolo Lisboa. Octacilíada . Belo Horizonte: Canaã, 1992, p. 228.

Salinas é, assim, mais que um ponto no mapa: é um encontro de águas, raízes e caminhos — um território que pulsa poesia e identidade no coração do cerrado norte-mineiro.

Gratidão a Nilton Loiola

Na travessia dos caminhos do Cerrado, há companheiros que tem presença firme, olhar que entende a alma da terra, mãos que ajudam a erguer memórias e sonhos

Em cada vereda da palavra, em cada raiz de lembrança, ele deixa um gesto de amizade, um sopro de poesia, um jeito de quem sabe escutar o vento do cerrado e sentir o gosto do sal de Salinas.

Gratidão, Nilton, por caminhar comigo nas estradas de Salinas, onde a arte se mistura com o pó da terra e o brilho das estrelas.
Tua parceria é um rio que corre manso dentro da minha obra —
e faz do Cerrado um território de eternidade.

Milton Santiago, entre veredas, memórias e eternidades.