Luto na Infância: Quando a Dor Também Mora no Coração das Crianças

Confira a coluna Saúde da Criança desta semana, por Dr. Arlen Santiago Neto

O luto não é exclusividade dos adultos. Crianças também sofrem profundamente com a perda — seja de um ente querido, de um animal de estimação, de um amigo ou até de um contexto importante (mudança de cidade, separação dos pais, etc.).
O que muda é a forma como elas compreendem e expressam essa dor.

👶 Como as crianças entendem a morte

Até 5 anos: veem a morte como algo temporário ou reversível; podem esperar que a pessoa volte.


De 6 a 9 anos: começam a perceber a irreversibilidade da morte, mas ainda têm fantasias e culpas (“foi porque eu fui malcriado”).

A partir dos 10 anos: já entendem a morte como definitiva e universal, aproximando-se da compreensão adulta.

💔 Sinais de sofrimento e sintomas psicossomáticos do luto

O luto infantil pode se manifestar mais no corpo e no comportamento do que nas palavras. É importante observar:

Queixas físicas recorrentes sem causa orgânica aparente (dor de cabeça, dor abdominal, náusea).

Distúrbios do sono e pesadelos.

Mudanças alimentares (perda ou aumento do apetite).

Queda no rendimento escolar.

Irritabilidade, agressividade ou isolamento.

Comportamentos regressivos (voltar a urinar na cama, chupar dedo, medo de dormir sozinho).

Ansiedade de separação — medo excessivo de perder outros familiares.

Essas manifestações psicossomáticas são formas do corpo expressar o que a criança ainda não consegue verbalizar.

🩺 O papel do pediatra

O pediatra tem papel essencial na identificação precoce do sofrimento emocional.
Durante as consultas, é importante:

Ouvir a criança e os cuidadores com empatia.

Investigar a história recente de perdas ou mudanças significativas.

Acolher sem minimizar (“ele é muito pequeno para entender”) ou sem medicalizar precipitadamente.

Orientar a família sobre a importância do diálogo aberto e verdadeiro, com linguagem adequada à idade.

Quando necessário, encaminhar ao psicólogo infantil ou psiquiatra infantil, especialmente diante de sintomas persistentes, retraimento prolongado ou sinais de depressão.

🤝 Como os pais e cuidadores podem ajudar

Falar a verdade com delicadeza: evite metáforas como “virou uma estrela” ou “foi dormir”, que confundem e geram medo.

Permitir o choro e a expressão emocional: mostrar que sentir tristeza é natural.

Manter rotinas: traz segurança e previsibilidade.

Estimular lembranças positivas: fotos, desenhos ou pequenos rituais de despedida ajudam na elaboração da perda.

Dar tempo: o luto não tem prazo, e cada criança vive à sua maneira.

🌱 Cuidar da alma é também cuidar da saúde

O luto mal elaborado pode gerar dores silenciosas que se transformam em sintomas físicos e emocionais duradouros.
A escuta atenta, o acolhimento e o acompanhamento multidisciplinar são fundamentais para que a criança transforme a dor em saudade, e a saudade em amor que permanece.

Dr. Arlen Santiago Neto é pediatra e atua em Montes Claros – Foto: Dr. Arlen Santiago Neto/Divulgação

🩺 Pediatria também é cuidar do invisível: das emoções que o corpo sente e o coração tenta entender. 💙