Por: Dr. Carlos Viana – Juiz Federal – januarense radicado em Vitória/ Espírito Santo.

Nesta semana reporto a bela narrativa do conterrâneo magistrado publicado, tempos atrás, no jornal Tribuna do Vale de Januária: “Na matéria publicada na seção “Recordar é Viver”,o nobre articulista José Maria Guedes, ao referir-se aos bailes que animavam a juventude januarense dos anos 80 utilizou a expressão “hora-dançante”. Quero crer, entretanto, que o termo, já mesmo naquela época, foi sobrepujado por outro.

Nos idos de 1976, a turma de alunos que compunha a 6a série colegial (equivalente ao moderno 7a ano) do saudoso Colégio Caciquinho, era, como é de esperar-se de qualquer grupo juvenil, adepta à realização de festas dançantes. Essas celebrações aconteciam revezadamente na casa de um ou de outro dos alunos, em geral a cada final de semana, e a expressão que havia para designá-las era a mencionada “hora-dançante”. A turma da 6a série achou que o nome andava cafona, antiquado, e começou a considerar a possibilidade de chegar-se a uma expressão mais moderna e vibrante, que a pudesse substituir. Imaginamos os vários meios de que poderíamos nos valer e finalmente levamos a questão à professora de inglês de então, a amabilíssima, paciente, educada e refinada Marília Alckmin. A professora Marília simpatizou com a causa e resolveu nos ajudar. Foi dela a ideia de apelidar os bailes, festas e horas-dançantes juvenis com o anglicismo Hi-Fi, que passou a ser o nome como os encontros ficaram conhecidos. Do período de 1976 a 1978, anos em que as reuniões se repetiam nos finais de semana, estou certo de que essa foi a denominação como eram conhecidas. O que as caracterizava nada tinha de diferente de uma festa, de uma hora-dançante, de um baile. Nos Hi-Fi havia: bebida quando havia, comida nem sempre e música a toda hora. Vivíamos a era DISCO e nos contorcíamos a esse ritmo, exceto nos momentos em que se tocava a chamada música lenta, ou seja, música romântica, quando se dançava de rosto colado, ocasião em que namoros eram propostos ou mesmo se iniciavam. A bebida, quando havia, era o inesquecível ponche, uma mistura de q-suco, geralmente de uva, com algum líquido de teor alcoólico e, dispersos no caudal cor de púrpura, uns cubinhos de maçã que, por serem raros, davam algum trabalho para serem capturados pela concha – quando se fisgava um, dois outros eram perdidos. A comida às vezes acontecia quando havia uma data especial agregada ao Hi-Fi, geralmente o aniversário do anfitrião.

O termo Hi-Fi pode referir-se ao drink feito de vodca, refrigerante de laranja e gelo, em moda entre a juventude (mais abastada e mais crescida) daqueles anos, ou à abreviação do termo high-fidelity, que é a reprodução de áudio feita por um aparelho com a maior fidelidade possível ao som real. Ambas as designações servem muito bem ao propósito da presente discussão e por isso tentei contatar a professora Marília para dirimir a dúvida, mas infelizmente não consegui.

No final de 1978, quando a turma da 6a série, que àquela altura já era a 8a série, se dispersou, indo muitos alunos para os cursos profissionalizantes do Colégio São João ou do Colégio Agrícola (hoje IFNMG), ou para os cursos normais no Olegário Maciel ou mesmo no próprio Caciquinho, os encontros festivos dos finais de semana se acabaram e não sei dizer se o nome Hi-Fi sobreviveu a essa era. Se houver alguém que possa elucidar o fato, seria ótimo saber qual foi a sorte de tal designação: 1) se simplesmente desapareceu após 1978; 2) se perdurou por algum tempo e depois foi esquecida; 3) se se mantém viva.
Como já anotado, o presente texto veio à baila a propósito do artigo do estimado José Maria. Qualquer que seja a nomenclatura de que se valha para descrever os bailes de outrora, hora-dançante ou Hi-Fi, o que não se discute é que, em ambas as situações, lá se vão velhos tempos, belos dias.





