Ela é aquela que acorda antes do sol, não porque gosta, mas porque o pão quente é o único símbolo de rotina que ainda resiste.
Sai de chinelo, cabelo amarrado no primeiro elástico que encontrou, o casaco cobrindo o pijama e a pressa cobrindo o resto.
Carrega no olhar o cansaço de quem dormiu pouco e não pode parar.
Na fila do pão, ninguém sabe que ela passou a noite revisando mensagens de terapeutas, tentando entender por que o atendimento do filho foi interrompido “por falta de evolução”.
Ninguém imagina que, antes de sair de casa, ela teve de convencer a criança a vestir a roupa certa, engolir o leite, aceitar a textura do pão e sair sem chorar.
Ela segura o pão com uma mão e o celular com a outra, respondendo e-mails da escola, remarcando consultas, tentando não perder o horário da fono, da TO, da vida.
Sabe que precisa de dieta, que o corpo pede descanso, mas o coração pede consolo e pão quente, naquele momento, é consolo.
Com crostinha de açúcar ou polvilhado com canela (o que der pra pegar) porque na pressa, ela mal escolhe: sal ou açúcar, tanto faz, contanto que alimente.
Porque o que realmente falta é tempo, e tempo, ela já aprendeu, não se compra nem na padaria.
Devora dois, talvez três.
E não é fome de farinha, é fome de paz.
Na fila do pão, ela pensa em como o filho ficou na escola: se o professor entendeu o bilhete, se ele almoçou, se alguém teve paciência.
E, quando pega o troco, lembra da reunião da escola e do mercado que ainda falta passar.
A mãe atípica na fila do pão é a mulher que carrega sacolas, diagnósticos, olhares e esperanças.
É a que já chorou no trânsito e sorriu no mesmo minuto porque o filho disse uma nova palavra.
É a que busca ajuda, desiste, tenta de novo.
Na fila do pão, ninguém sabe seu nome.
E, no meio daquela fila silenciosa, entre vizinhos apressados e sotaques diversos, ela observa os estudantes sonolentos e pensa no futuro.
Pensa em quem vai cuidar do filho quando envelhecer.
Em como vai ser quando as pernas cansarem e os braços já não derem conta das sacolas, nem dos colos.
E teme o dia em que o colo dela faltar.
Porque, quando faltar colo pra ele, vai faltar também o pão.
Quem vai enfrentar essa fila?





