Você cuida do seu coração?

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana

Você já parou para pensar em como o capacitismo se infiltra silenciosamente na nossa vida cotidiana?
Ele está ali, disfarçado e naturalizado, e muitas vezes nem percebemos que o reproduzimos.

Podemos compará-lo, talvez, à gordura que consumimos sem perceber.
Sim, é isso mesmo.
Ao longo do tempo, nossos “hábitos alimentares” são moldados pelo ambiente em que vivemos: família, escola, sociedade.

Com o capacitismo acontece o mesmo, só que o cardápio é outro.
Desde cedo, somos alimentados com crenças que intoxicam, com falas como:
“Coitadinho, ele nasceu com deficiência…”
“Não vai conseguir aprender…”
“Deve ser triste ter um filho assim…”


Essas frases, repetidas geração após geração, alimentam comportamentos de exclusão, como o simples ato de não convidar uma pessoa com deficiência para uma festa ou de não acreditar em sua capacidade de trabalhar, estudar e decidir sobre a própria vida.

Se o colesterol é uma doença individual, uma gordura que vem dos hábitos alimentares e ameaça o nosso próprio coração, o capacitismo é um hábito nocivo que se transforma em uma doença coletiva, comprometendo o coração da sociedade.

Os hábitos capacitistas são como alimentos ultraprocessados: fáceis de encontrar, socialmente aceitos e, muitas vezes, disfarçados de algo inofensivo.
Eles aparecem em uma piada “sem maldade”, em uma vaga de emprego inacessível, em um olhar de pena.
Esses pequenos gestos, embora pareçam inofensivos, se acumulam.
A gente consome, repete e nem percebe o quanto isso nos intoxica como sociedade.

Mas há também os hábitos inclusivos, e esses precisam ser cultivados com intenção.
Eles exigem tempo e disposição para conviver, abrir espaço e acreditar na capacidade do outro.

O capacitismo é o reflexo de uma sociedade que ainda se alimenta de preconceitos e crenças ultrapassadas, servidos diariamente no prato das conversas, das piadas e das decisões institucionais.
Basta olhar em volta: quantas pessoas com deficiência continuam fora da universidade, do mercado de trabalho e da conquista de uma vida independente?

Quando meu filho nasceu com deficiência, comecei a revisar o que coloco no meu prato simbólico todos os dias: as palavras que uso, os conteúdos que consumo, os espaços que ocupo.
Com isso, decidi fazer uma reeducação, não alimentar, mas de mentalidade.
Troquei os fast-foods do senso comum pelo conhecimento científico, pela convivência com a diversidade e pela escuta ativa com outras mães atípicas.

Assim como selecionamos o que colocamos no prato, também precisamos escolher as conversas que nos nutrem. O capacitismo é como colesterol: silencioso, mas perigoso. Nem toda fala alimenta; algumas apenas intoxicam.
Estar atento ao que ouvimos e ao que repetimos é um exercício diário de consciência.
E reeducar nossos hábitos e crenças para a diversidade é, antes de tudo, cuidar do coração de todos.