Há palavras que pesam mais do que parecem. “Mãe”, por exemplo.
Tão curta, tão doce — mas às vezes tão pesada.
A maternidade é uma palavra cheia de reticências. É o amor que não cabe em dicionário nenhum, mas também é o cansaço que não se confessa nem no espelho. É a entrega que não tem medida e o esgotamento que não tem pausa. É um verbo que a gente conjuga o tempo inteiro: dar, cuidar, acordar, acalmar, recomeçar. E, entre um verbo e outro, quase sempre esquecemos de conjugar o mais importante: existir.
A Língua Portuguesa ensina que sujeito é aquele que pratica a ação. Mas, na vida, nós — mães — muitas vezes deixamos de ser o sujeito da frase. Viramos adjunto: aquele termo que acompanha, explica, sustenta… mas não é o centro.
E é aí que o peso se instala.


Ser mãe não deveria significar perder-se.
Ser mãe deveria significar ampliar-se.


Quando uma mulher cuida da própria mente, ela ensina o filho a cuidar da dele.
Quando uma mãe descansa sem culpa, ela mostra ao filho que o corpo tem limites e merece respeito.
Quando ela pede ajuda, ela ensina que vulnerabilidade não é fraqueza — é coragem.
Cuidar de si não é egoísmo, é pedagogia do amor.
Porque o amor que a gente dá só é verdadeiro quando nasce de um lugar inteiro — e não de um coração exausto.
É preciso reaprender a ser sujeito, mesmo quando tudo nos empurra para o papel de objeto: de cuidado, de obrigação, de exemplo.
A gramática da vida precisa incluir o eu antes do nós, não por vaidade, mas por necessidade.
Ser mãe é verbo transitivo, precisa de complemento para existir.
E, no fim das contas, o maior aprendizado é esse: não há maternidade perfeita, mas há maternidade possível — quando a gente entende que amar os filhos também passa por amar a si mesma.
Por Lete Lucena
Professora, mãe de três e eterna aprendiz das palavras e da vida.





