Quando nasce um filho com deficiência, a vida vira uma conta de matemática que nunca zera.
Temos que aprender a diminuir a dedicação ao trabalho, dividir o tempo entre terapias e médicos, multiplicar por dez o estresse a cada reunião da escola e o resultado nem sempre é positivo.
Sempre queremos somar mais no aprendizado do filho.
Na maternidade atípica, os números já aparecem logo de início, na contagem dos nove meses que vêm pela frente. Mas, antes que esse futuro chegue, a gente começa, sem perceber, a ensinar tudo. Afinal, toda mãe sonha com o futuro do seu filho.
É ali, nas pequenas rotinas, que a matemática começa a aparecer: nas canções como “Um, dois, três, indiozinhos…” ou nas músicas da Xuxa, como “Três patinhos foram passear…”.
Ou, na brincadeira de pega-pega, quando dizemos “um, dois, três e já!”.
Brincando, a mãe ensina sequência numérica e ordem.
Até mesmo na hora da briga, a gente diz para a criança: “me obedeça ou eu vou contar até cinco!”.
E, sem perceber, a criança aprende que a matemática mora na relação com a dinâmica, o funcionamento e as interações dentro da sua família.
Tudo na vida de uma pessoa tem a linguagem dos números: as velas que enfeitam o aniversário, a data do nascimento, o Natal, o Dia da Mentira, a partilha dos doces que a avó divide entre os netos ou a quantidade de beijos que recebe nas interações de afeto com sua família.
É a linguagem que estrutura o mundo e dá sentido ao que fazemos, e isso começa dentro de casa.
Por isso, quando falamos da matemática na vida do aluno, não dá para deixar a família fora da equação.
Identificar a dinâmica e o funcionamento familiar de cada aluno é conhecer como a vida dele se organiza, o que faz sentido e o que tem valor para a sua aprendizagem.
Cada costume, cada rotina, cada pequeno hábito é um dado importante dessa conta.
A família ensina os primeiros conceitos básicos da linguagem da matemática, e a escola transforma esse conhecimento em aprendizagem para o mundo formal.
E, quando família e escola somam esforços, o resultado é o desenvolvimento real.
Particularmente, eu até que não tenho um sonho tão ambicioso.
Nem de matemática eu gosto, até hoje sou péssima em frações, e problema é um problema para mim.
Mas aprendi, com o tempo e com a vida, que a matemática que realmente importa é aquela que não cabe nos livros, mas que faz parte da vida do meu filho e a torna funcional.
Afinal, esperamos esse filho por nove meses, levamos à escola por mais de dez anos e sonhamos que, em sua vida adulta, ele saiba pagar o próprio café, reconheça os números para encontrar o endereço certo da casa da namorada e, quem sabe, caso um dia precise, consiga ligar para o 192 e salve a minha vida.





