Estudar é ato de resistência

Confira a coluna Aprenda com Quem Sabe desta semana
Foto: Lete Lucena / Arquivo Pessoal

Outro dia ouvi alguém dizer, com a serenidade de quem descobriu o segredo da vida:
— “Ah, professora Lete Lucena, estudar não é pra mim!”

Respirei fundo. Porque se tem coisa que me dá comichão na alma é essa mania de achar que o conhecimento escolhe as pessoas — como se fosse um clube exclusivo, com senha secreta e tapete vermelho.

Estudar é pra todo mundo. Só que exige coragem que poucos têm: a de ficar sentado, firme, diante do próprio desconhecimento. É olhar para o livro e admitir: “não sei, mas quero saber”. E, convenhamos, isso dá trabalho! Mais fácil é dizer que “não nasceu pra isso” e voltar pro sofá, que não exige vestibular.


Mas estudar, meu rico leitor, é ato de resistência! Resistir à preguiça, ao sono, à notificação do celular, ao mundo que grita “curte, compartilha, comenta”, enquanto você tenta decorar a diferença entre “por que”, “porque”, “por quê” e “porquê”. Resistir, inclusive, à tentação de jogar tudo pro alto e abrir perfil de “coach de desapego acadêmico”.

O estudante é sobrevivente em campo minado de distrações. E é bonito de ver quando ele insiste, quando abre o caderno mesmo sem vontade, quando faz resumo, quando pergunta. Porque, no fundo, estudar é desafiar o óbvio, é dizer pro mundo: “Eu posso mais.”

E, veja bem, não é só sobre tirar nota boa. É sobre entender o mundo com mais nitidez. É conseguir ler notícias e perceber o que está nas entrelinhas. É ouvir discursos bonitos e saber que “bonito” nem sempre é “verdadeiro”. O estudo não muda só o boletim — muda o olhar.

Há aqueles que acham que estudar é acumular informação. Ledo (leia “lêdo”, som fechado) engano! Estudar é refinar o pensamento, é aprender a desconfiar das próprias certezas, é perder o medo do “não sei”. É exercício diário de humildade, quase ginástica mental.

E tem outra coisa: estudar também é ato político. Porque povo que pensa não é massa de manobra. Quem lê, questiona. Quem entende, escolhe. E quem escolhe, muda o rumo da história — mesmo que comece com uma redação bem escrita ou uma vírgula colocada no lugar certo.

Então, quando alguém diz que estudar é chato, eu sorrio. Chato é repetir os mesmos erros por falta de leitura. Chato é depender da opinião dos outros porque não teve coragem de construir a própria. Chato é viver no automático, enquanto o conhecimento está ali, de braços abertos, esperando pra ser descoberto.

Por isso, se hoje você está cansado, com sono, achando que não vai dar conta, lembre-se: cada página lida é uma pequena rebeldia contra a ignorância. Cada texto compreendido é um “não” dito em voz alta à mediocridade.

Estudar é ato de resistência, sim. E quem resiste, vence!
Aprenda com quem sabe!