A coragem é a ferramenta usada todos os dias por quem vive à margem, entre essas pessoas estão também aquelas com algum tipo de deficiência.
Quero convidar você, leitor, a refletir comigo sobre o que existe por trás da coragem que move diariamente essas pessoas.
Eu não tenho deficiência e nunca vivi essa condição, nem de forma temporária. Ainda assim, tomo a liberdade de escrever sobre esse tema porque sou mãe de um adolescente com síndrome de Down. E foi a partir da convivência com o meu filho e da observação de sua vida que aprendi o que é, de fato, ser corajoso.
Mateus é um jovem que enfrenta o mundo com uma força silenciosa. Desde cedo, precisou lidar com rótulos como “coitado” ou “incapaz”, palavras que, infelizmente, ainda ecoam na nossa sociedade. Percebo que essa coragem cresce junto com a pessoa. Quando chega a hora da escola, o espaço mais aguardado por qualquer criança, o desafio se renova.
Lá, o mesmo menino rotulado precisa provar, todos os dias, que merece estar ali. E, muitas vezes, o faz em silêncio: no recreio solitário, nas atividades em que não é chamado, nas conversas das quais não participa. Escrever sobre isso me faz pensar o quanto tenho aprendido com ele sobre a coragem.
Porque Mateus acorda todas as manhãs feliz, disposto a aprender, mesmo enfrentando barreiras que muitos de nós sequer imaginam.
Talvez ele nem perceba a amplitude da exclusão que o cerca, seja pela deficiência cognitiva, seja porque sua busca por felicidade se concentra nos pequenos gestos, nos sorrisos sinceros e nas pessoas que se dispõem a viver o mundo junto com ele.
E é justamente isso que me faz admirar ainda mais a coragem dele: a capacidade de transformar o pouco em muito, o difícil em simples e o cotidiano em aprendizado.
E então eu me pergunto e convido você a se perguntar também: o que fazemos com todas as oportunidades que temos?
Quantas vezes desistimos por medo, por cansaço, por não querermos sair da zona de conforto?
Há quem precise vencer barreiras físicas, nas ruas e transportes sem adaptação; barreiras comunicacionais, quando faltam recursos como comunicação alternativa, braille ou intérprete de Libras; e barreiras atitudinais, talvez as mais duras os olhares de dúvida sobre a capacidade e o silêncio diante da diferença.
Essas últimas são as que mais nos desafiam, porque é nelas que se revela a indiferença de todo sistema.Eu não tenho a pretensão de mudar um sistema tão amplo, mas de provocar a reflexão nas pessoas que o compõem, um sistema que, no fim das contas, é feito de gente: de mim, de você, de todos nós.
A coragem de Mateus me ensina sobre a vida e me coloca aqui, no lugar de uma mãe corajosa, disposta a abrir espaços para esta conversa e a compartilhar uma mensagem que também inspire a sua vida.
Mas, para isso, é preciso que você se abra a outro tipo de coragem, aquela que transforma a sua forma de pensar as diferenças e permite que a atitude empática e o respeito ocupem, de vez, o lugar do preconceito.





