O tempo que se serve em xícaras

O café esfria, as crianças crescem, os cabelos embranquecem.
Foto: Arquivo Pessoal

Há palavras que só o tempo ensina, uma delas é efemeridade. Curiosa palavra: leve na pronúncia, mas pesada no significado. Traz dentro de si a lembrança de que tudo passa — o café esfria, as crianças crescem, os cabelos embranquecem.

No último sábado, vivi uma dessas experiências que o dicionário não explica, todavia o coração entende: Café com os Avós. Um encontro simples — biscoitos, risadas, lembranças —, mas sobretudo cheio de algo que não se vende, nem se repete: o sabor da presença.

Enquanto observava os mais velhos conversando, percebi que envelhecer é forma silenciosa de aprender a viver calma e serenamente. O tempo vai tirando os excessos — de vaidade, de pressa, de orgulho — e nos devolve o essencial: o verbo ser. Ser grato. Ser leve. Ser lembrança boa na história de alguém.


A Língua Portuguesa garante esta beleza que me comove, pois abriga no mesmo tempo verbal o passado e a saudade. “Eu tive” é quase sempre o começo de “eu sinto falta”. Por isso, guardar memórias é forma de resistir à passagem do tempo. É arquivar, na alma, o que a fotografia não alcança.

A vida, afinal, é texto curto demais para deixarmos para escrever depois. É preciso valorizar as vírgulas, os parágrafos, os encontros. É preciso elogiar antes da ausência, agradecer antes do adeus, abraçar antes que a pressa — essa revisora impiedosa — roube-nos a chance de fazê-lo.

O café com os avós foi isso: pausa na correria, lembrete de que o amor também precisa de pontuação. Que a vida, quando bem vivida, tem gosto de história contada devagar, entre goles de café e risadas que aquecem o tempo.

E que bonito é perceber que, no fundo, o que mais precisamos guardar não cabe em álbuns — cabe em nós.

Foi emocionalmente grandioso, foi lindo, foi de Deus!