“É justo que muito custe o que muito vale.” Santa Teresa d’Ávila escreveu isso há séculos, mas, curiosamente, a frase não envelhece. Ela poderia ter sido dita hoje, num banco de praça, por alguém que acabou de conquistar diploma; ou murmurada por mãe que, depois de tantas noites sem dormir, vê o filho dar os primeiros passos.
O curioso é que passamos a vida tentando escapar do “custe”. Queremos o “vale”, todavia sem pagar o preço. Queremos resultados rápidos, soluções instantâneas, recompensas imediatas. O problema é que o que vem fácil, vai fácil. E o que chega sem esforço quase nunca cria raiz.
O estudo é bom exemplo disso. Quantos alunos reclamam do peso dos livros, do tédio da gramática, das horas roubadas do lazer? No entanto, o brilho nos olhos de quem segura o diploma ou lê a própria nomeação no Diário Oficial não deixa dúvida: custou muito, mas valeu infinitamente mais.
O mesmo se pode dizer das relações humanas. O amor que sobrevive ao tempo não é aquele que se alimenta de promessas fáceis, contudo o que se sustenta em conversas difíceis, paciência nos dias nublados e pequenas renúncias diárias. A amizade verdadeira não é a que surge em instantes de festa, porém a que permanece firme quando as cortinas se fecham e a plateia vai embora. Custa tempo, custa presença, custa cuidado. Mas vale. E vale muito.
O uso repetido do advérbio “muito” na frase de Teresa não é por acaso. É como se ela quisesse nos avisar: prepare-se, vai doer, vai cansar, vai exigir mais do que você imagina. Entretanto, do outro lado, a recompensa também será abundante, intensa, transformadora. É relação de proporção direta — o valor cresce na medida do esforço.
A vida inteira confirma isso. O músico que passa anos treinando escalas até emocionar plateias. O escritor que rabisca dezenas de páginas até encontrar uma linha que realmente diz o que sente. O atleta que acorda cedo para treinar, quando o resto do mundo ainda dorme. O pai e a mãe que abrem mão de sonhos pessoais para ver os filhos sonhando maior. Tudo isso custa, por isso é justo.
Talvez seja por isso que, no fundo, não nos arrependemos do esforço. Lamentamos os dias desperdiçados, mas raramente nos arrependemos do preço pago pelo que de fato nos enriqueceu. O diploma, a amizade, o amor, a conquista pessoal — todos carregam em si não apenas o valor do que representam, mas também a lembrança de quanto custaram.
Santa Teresa, com sua frase breve e certeira, não nos deu apenas conselho espiritual. Ela nos entregou uma chave para compreender a vida: o caminho do valor é o caminho do esforço. E, se por vezes a caminhada é dura, é justamente ela que dá sentido à chegada.
Porque, no fim, é sempre assim: aquilo que mais nos marcou, que mais nos transformou, que mais nos fez crescer, não foi o que chegou de repente. Foi o que custou. E, exatamente por isso, valeu.
Portanto: “É justo que muito custe o que muito vale!”





