Na coluna desta semana, um histórico relato do januarense Altimar Ferreira, o popular Domar Sanfoneiro: Me lembro bem dessa cheia. Tinha acabado de servir o Tiro de Guerra. Doido pra voltar parra São Paulo. No começo da cheia estava reformando o telhado do Minas, Hotel do Donald Diamantino, juntando a graninha para pagar a passagem. Depois do sufoco, quando o rio começou a baixar, a lama, a sujeira, as estradas ainda sem condições de circulação.

Comprei minha passagem pra Belo Horizonte e o cidadão não me avisou que o ônibus só partia de Maria da Cruz. Vai o besta pra rodoviária, cadê o ônibus? Lá vai 50 de táxi até a colônia de pescadores onde saia o vapor. Que felicidade! Chegando lá, o vapor já estava na manobra e eu entrei em desespero. E agora? Vou perder o ônibus, meu dinheiro, meu sonho.

Que situação! Nessa hora, encosta um canoeiro com uma canoinha movida a um motor, e me cobra 200 até Maria da Cruz. Minha “sorte” que mais três pessoas aparecem e dividimos o frete. O stress diminuiu um pouco quando embarcamos. Avistei o vapor, parece que estava descendo rio abaixo lá bem longe.

Estava procurando o canal. E lá vamos nós na canoinha. Motorzinho nas últimas. Tap,tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, e lá vamos nós. De repente lá embaixo, aponta o bico do vapor, bem mais veloz. O stress começou voltar quando descobri que íamos perder a corrida. Lá vem, lá vem, o vapor, e o medo de de novo de perder a viagem para BH. O desespero aumenta quando o enorme vapor passa por nós com tudo. Em meio a preocupação com a viagem, surgiu outra pior, as ondas.

A passagem do vapor causaram altas ondas, que fazia a canoinha parecer uma rolha de cortiça. Eu, olhando pro meu sapato de 1975, aqueles carrapeta que pesava um quilo cada um, imaginando se essa infeliz afundar, já não sei nadar, com esse sapato afundo mais rápido que um machado sem cabo. Não foi brincadeira gente.
De repente, comecei me acalmar. Ufa! Até que enfim o perigo passou e não vamos afundar. Mas, se afastando da gente o vapor ia na dianteira diminuindo o tamanho. A canoinha continuava. Tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap. O canoeiro resolveu jogar para outra margem. E lá vamos nós. De repente a hélice bateu num mourão de cerca e dá uma balançada na canoa, faltou pouco pra canoa virar para Januária.
Refeito do susto, comecei bolar o que eu deveria fazer para não perder a viagem. Prestei atenção na diminuída de velocidade do vapor e o tempo de manobra. Mesmo assim eu estava com a adrenalina alta e decidi que deveria deixar a canoa e sair correndo e gritando ao motorista para não me deixar.
Quando eu saltei da canoa, meus pés afundaram até o joelho naquela lama vermelha da beira do rio. Que sufoco! E agora? Com aquele carrapeta pesado tive que desatolar e sair correndo pra não perder o ônibus. Foi terrível. Consegui chegar até o ônibus que já tava funcionando e já com os passageiros embarcando que foram no vapor. Quando eu me tranquilizei, olhei pra trás, o canoeiro vinha babando com medo que eu embarcasse no ônibus e não pagasse os 50 dele.
O motorista do ônibus esperou jogar água para lavar aquela lama. Foi só pegar minha mala daquelas de papelão amarronzado sentar na poltrona 4 e seguir viagem. Em montes Claros trocou de ônibus e de motorista. À noite, chegando em BH, a rádio Tiradentes estava sintonizada com a música San Francisco Night rolou. Esse foi um dia em minha vida. Valeu, quem teve paciência pra ler.





