O poder de uma mãe atípica

Acrescento ainda que o empoderamento na maternidade atípica é uma forma de amor somado ao conhecimento. De maneira mais específica, é o amor que nos faz acordar todos os dias dispostas a aprender mais
Foto: Arquivo Pessoal

São muitos os desafios por trás do empoderamento de famílias de pessoas com deficiência. De acordo com García-Sánchez et al. (2014), o termo empoderamento é frequentemente empregado na língua inglesa (empowerment) e tem o significado de “ajudar alguém a se sentir competente e apoiá-lo a alcançar a capacidade de fazer alguma coisa”.

Acrescento ainda que o empoderamento na maternidade atípica é uma forma de amor somado ao conhecimento. De maneira mais específica, é o amor que nos faz acordar todos os dias dispostas a aprender mais.

Empoderar significa esforço. É uma decisão contínua e comprometida. O empoderamento exige que descartemos crenças limitantes sobre a deficiência e passemos a enxergar e cultivar as potencialidades desse filho.


Assim, o esforço dedicado à prática do conhecimento torna-se, de fato, um ato de amor e coragem, o mesmo ato de coragem que levou essa mãe, fonoaudióloga, nascida e criada em Montes Claros, interior de Minas Gerais, a sair de sua cidade para cursar mestrado e doutorado em Psicologia.
Afinal, eu queria aprender tudo sobre síndrome de Down e, acima de tudo, aprender a ser uma mãe “empoderadamente” melhor para cuidar do meu filho.

Passamos uma enorme quantidade de tempo ouvindo que somos mães guerreiras. Em virtude dessa crença, desperdiçamos muito tempo acreditando nisso. Mas, se refletirmos melhor, veremos que até mesmo os grandes guerreiros, os super-heróis dos desenhos animados e filmes, são metade humanos e metade heróis. Também sentem medo. Passam por conflitos pessoais. Nasceram super, mas precisaram aprender a usar sua força. Sem aprender a dominar seus poderes, não concretizam sua missão na Terra.

Geralmente, na última cena dos desenhos ou filmes, o super-herói luta com seu maior inimigo. Nessa luta, ficam evidentes suas fragilidades. E, na cena mais dramática, próximo do fim do filme, ele lembra-se de alguém que ama e do que precisa fazer para vencer aquela batalha. Para isso, precisou apenas acessar o amor e o conhecimento.

Bom, eu tenho a seguinte teoria: acredito que até os super-heróis aprenderam com seus mestres sobre evidências científicas. E é isso que mães atípicas devem ter o direito de fazer todos os dias: acesso ao conhecimento, porque o que nos fragiliza diante do nosso filho é a falta dele.

Não nascemos providas de superpoderes para voar, desaparecer ou correr, mas temos outra arma: a ciência de boa qualidade, aquela que responde às nossas perguntas e abre caminhos. Não queremos ser chamadas de mães guerreiras; nossa vida não é ficção científica.

Para isso, precisamos entender que temos o direito ao conhecimento, e que ele não é nada extraordinário: é URGENTE e REAL!!

Ou seja, quando percebi que as leituras de artigos científicos respondiam às minhas angústias e me ajudavam a tomar decisões para que meu filho vivesse plenamente quem ele é, entendi que isso é empoderamento. Foi então que tudo passou a fazer sentido na minha vida.

Eu digo e repito: nós, mães atípicas, somos aquelas que observam comportamentos, analisam fatos, aprendem diariamente e aplicam com consistência. Assim, nada mais óbvio e legítimo do que afirmar, com toda convicção: toda mãe é cientista.

Afinal, quem conhece o filho melhor do que ela?